quinta-feira, 27 de julho de 2017

Solidão




Voltei, dona.
Voltei, eterna senhora. Perdoe a longínqua espera Perdoe a longínqua demora

Jamais deveria ter partido dos seus braços
Sois a unica musa que se prestaria a me amar
Mas mentiria acaso dissesse à ti
Que foi por querer o meu voltar

Desci de meu castelo, de sua eterna companhia
Recorri à  realeza de uma nobre bailarina
Pobre de mim por acreditar
Pobre poeta, iludir-se a sonhar

Sois a unica que se deita em meu leito
E não me incomoda olhar teu olhar ao despertar
Sois a unica que me conforta
Sois vós quem irá me matar

Solidão, perdão.
Volto à ti
Eterna companhia da minha valsa
Que outrém jamais saberá dançar.


Vinte Anos



Os vinte anos remetem ao fim da mocidade Inicia-se um ciclo escorregadio, o prêmio marcado pela idade Tem marcas mais profundas, o deleite de uma esperança Calada tão cedo por uma política de amargas alianças

Meu país não é meu lar
Não me restam forças, inda na mocidade, para lutar Essa profundeza de abismo coberta por purpurina Não engana minha mocidade, trágica euforia

Ser não mais nova
Ser inda não velha Resistir para que os versos em mim resistam Insistir para que as saudades em mim não consistam Com o eterno esperar



Olhos de alma inquieta Tão só, naufragada Refugiei-me em ilusões incertas Sonhei como marinheiro, a espera da alvorada


Vinte anos, o nada Bilhões de anos, astrais De que me valeria a estadia Se a alma não regozija? Se a alma não tem paz?

E de que valeria a paz Se só se mostra ela presente Ao término do ciclo Da vida intermitente?

Se tantos sonhos ainda sonho Se tantos versos não sou mais capaz de compor Por onde anda o sonho de marinheiro Que um dia em meu peito desabrochou?


Se puder, eu, enfim, ser borboleta
Sem rumo, vagar entre flores do equinócio primaveril... Por que não veneramos também as mariposas De vidas noturnas, outonais de abril?


Se tantos sonhos já desisti de sonhar Por que ainda é latente no peito O esboço do desejo Da eterna desventura?


Eu quero me calar Eu quero gritar aos mares Para a moça bonita que passa Que traga a vida na morte A resposta inconstante De como se navega para o norte


Fatigada dos sonhos Do deixar de sonhar Alçar os céus no prumo da borboleta Nos ventres da mariposa, repousar.