Ah, Liza, eu te odeio, odeio tanto! Por que, Liza? Por que se atreveu a me amar? Por que se atreveu a conhecer a minha miséria? Liza, eu sou um verme! Não, eu sou pior que um verme! Eu sou egoísta, Liza! Nem os vermes são egoístas... Liza, eu te fiz chorar, eu te fiz sentir-se acolhida, Liza! Mas Liza, és tão inocente que jamais chegou a perceber que demonstrei-lhe afeição apenas para ver teus gemidos de dor, Liza? Apenas para ver sua alma revirada e humilhada a me olhar? Apenas para lembrar a mim mesmo quem sou? Liza, naquela noite eu havia gastado mais copeques que poderia, eu estava humilhado, Liza. Mesmo com toda minha sagacidade, não consegui a atenção daqueles que sempre passaram por mim sem conseguir me amar ou mesmo me odiar! Como eu queria ter um inimigo a minha altura, Liza! Mas essa sociedade só sabe se saciar com mulheres como você e copeques pelo seu corpo! Liza, você simboliza o que eu odeio, Liza! Você foi tão frágil, Liza... Em pouco tempo, tudo o que estava diminuído em mim, consegui crescer por cima de você, Liza! E pra você eu me tornei o herói... Ah! Malditos livros de romances que precisam de um herói! Lhe dei meu endereço, mas tudo o que fiz foi praguejar para que não viesses nunca! Mas você veio, veio e me encontrou em minha situação miserável! Veio e me acolheu com teus soluços, você se tornou a heroína, Liza! Que pensamentos são esses? Eu não posso me tornar um homem normal, Liza! Não sou uma pessoa boa, eu preciso voltar ao meu subsolo. Eu te odeio, odeio por me fazer perceber que meu sonho é querer ser um homem normal, odeio por perceber que sou um inútil infeliz que se camufla atrás dos livros. Eu idealizei, Liza, idealizei tanto... Mas sou um sonhador, por favor! Não sou, não sou quem realiza, eu sou o eterno sonhador. Maldita seja sua pessoa! Maldita seja essa escrita onde não posso me esconder de mim, maldita sinceridade que não me permite mentir nem em meu legado... Quero, Liza. Quero novamente confundir teus soluços com os meus, e levar uma vida com teu sorriso ingênuo, ainda que sejamos miseráveis, mas não posso, Liza. Eu sou o sonhador. Por favor, vá para os Diabos!
Sobre "Notas do Subsolo" de Dostoiévski
"Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos."