terça-feira, 19 de setembro de 2017

Pedido às Pressas


Nasci mulher no mundo cão.
Culpada, sangra, suja, perdição de Adão.
O primeiro pecado é atribuído às minhas mãos.

É triste ter de pedir para não confundirem sexualidade com caráter.
É triste ter de pedir para não mais repetir que sou meio, metade.
Aliás, ai está! Nunca fui de meios, sou de pólos.
E sou completa.

Se amo, amo o ser, o que nele habita, 
A minha sexualidade eu sei que é a mais bonita
E que mania que vocês possuem em reduzi-lá
Por pura insegurança, erro na própria alquimia.
Incompleto é tu. Eu possuo maestria. 
Minha bandeira é colorida, meus versos alegria.
E com orgulho visto tua acusação: Bruxaria.

Embora agora, a culpa seja tripla
Não bastou nascer mulher, cuspida
Nasceu doente, doente sim, na categoria
Afinal, sã é a sociedade fingida.

NÃO SOFRO DE DOENÇA.
E o pedido que deixo por outro alguém já foi feito:
"Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também."

PAZ

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Solidão




Voltei, dona.
Voltei, eterna senhora. Perdoe a longínqua espera Perdoe a longínqua demora

Jamais deveria ter partido dos seus braços
Sois a unica musa que se prestaria a me amar
Mas mentiria acaso dissesse à ti
Que foi por querer o meu voltar

Desci de meu castelo, de sua eterna companhia
Recorri à  realeza de uma nobre bailarina
Pobre de mim por acreditar
Pobre poeta, iludir-se a sonhar

Sois a unica que se deita em meu leito
E não me incomoda olhar teu olhar ao despertar
Sois a unica que me conforta
Sois vós quem irá me matar

Solidão, perdão.
Volto à ti
Eterna companhia da minha valsa
Que outrém jamais saberá dançar.


Vinte Anos



Os vinte anos remetem ao fim da mocidade Inicia-se um ciclo escorregadio, o prêmio marcado pela idade Tem marcas mais profundas, o deleite de uma esperança Calada tão cedo por uma política de amargas alianças

Meu país não é meu lar
Não me restam forças, inda na mocidade, para lutar Essa profundeza de abismo coberta por purpurina Não engana minha mocidade, trágica euforia

Ser não mais nova
Ser inda não velha Resistir para que os versos em mim resistam Insistir para que as saudades em mim não consistam Com o eterno esperar



Olhos de alma inquieta Tão só, naufragada Refugiei-me em ilusões incertas Sonhei como marinheiro, a espera da alvorada


Vinte anos, o nada Bilhões de anos, astrais De que me valeria a estadia Se a alma não regozija? Se a alma não tem paz?

E de que valeria a paz Se só se mostra ela presente Ao término do ciclo Da vida intermitente?

Se tantos sonhos ainda sonho Se tantos versos não sou mais capaz de compor Por onde anda o sonho de marinheiro Que um dia em meu peito desabrochou?


Se puder, eu, enfim, ser borboleta
Sem rumo, vagar entre flores do equinócio primaveril... Por que não veneramos também as mariposas De vidas noturnas, outonais de abril?


Se tantos sonhos já desisti de sonhar Por que ainda é latente no peito O esboço do desejo Da eterna desventura?


Eu quero me calar Eu quero gritar aos mares Para a moça bonita que passa Que traga a vida na morte A resposta inconstante De como se navega para o norte


Fatigada dos sonhos Do deixar de sonhar Alçar os céus no prumo da borboleta Nos ventres da mariposa, repousar.

sábado, 4 de março de 2017

Domingo de Chuva

Noite de festa, comemoração pela cidade. Pessoas com cheiro de bebida, mas coloridas.
Ela sentou no ponto de ônibus, enquanto fumava o cigarro para romantizar com a situação, as lágrimas já estavam fracas, mas um moço percebeu que ela tinha uma tatuagem em homenagem a banda Legião Urbana. Péssima sacada. Ela já estava se recompondo, talvez o moço tenha feito aquilo apenas para lhe chamar atenção, mas a afinação e entonação denunciavam, ele cantava com o coração. "Aguento firme", pensou. O problema foi quando ele pronunciou "há tempos são os jovens que adoecem", as lágrimas rolaram, segurou o soluço. Só conseguia apelar para Deus que aquele moço parasse de cantar. A música terminou, ela não olhou-o no rosto, vestiu uma blusa para cobrir a tatuagem, o ouviu dizer em tom de muita felicidade: "Obrigada, moça. Você fez eu me lembrar dessa música linda". Ela queria olhar, queria abraça-lo e conversar com ele por muito tempo, só conseguiu dizer um "que bom", sem ao menos lhe olhar na face. Correu para o ônibus, malditas lágrimas. Ela queria não ser o contraste, ao menos uma vez. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"Nunca lhe perdoarei!"

Ah, Liza, eu te odeio, odeio tanto! Por que, Liza? Por que se atreveu a me amar? Por que se atreveu a conhecer a minha miséria? Liza, eu sou um verme! Não, eu sou pior que um verme! Eu sou egoísta, Liza! Nem os vermes são egoístas... Liza, eu te fiz chorar, eu te fiz sentir-se acolhida, Liza! Mas Liza, és tão inocente que jamais chegou a perceber que demonstrei-lhe afeição apenas para ver teus gemidos de dor, Liza? Apenas para ver sua alma revirada e humilhada a me olhar? Apenas para lembrar a mim mesmo quem sou? Liza, naquela noite eu havia gastado mais copeques que poderia, eu estava humilhado, Liza. Mesmo com toda minha sagacidade, não consegui a atenção daqueles que sempre passaram por mim sem conseguir me amar ou mesmo me odiar! Como eu queria ter um inimigo a minha altura, Liza! Mas essa sociedade só sabe se saciar com mulheres como você e copeques pelo seu corpo! Liza, você simboliza o que eu odeio, Liza! Você foi tão frágil, Liza... Em pouco tempo, tudo o que estava diminuído em mim, consegui crescer por cima de você, Liza! E pra você eu me tornei o herói... Ah! Malditos livros de romances que precisam de um herói! Lhe dei meu endereço, mas tudo o que fiz foi praguejar para que não viesses nunca! Mas você veio, veio e me encontrou em minha situação miserável! Veio e me acolheu com teus soluços, você se tornou a heroína, Liza! Que pensamentos são esses? Eu não posso me tornar um homem normal, Liza! Não sou uma pessoa boa, eu preciso voltar ao meu subsolo. Eu te odeio, odeio por me fazer perceber que meu sonho é querer ser um homem normal, odeio por perceber que sou um inútil infeliz que se camufla atrás dos livros. Eu idealizei, Liza, idealizei tanto... Mas sou um sonhador, por favor! Não sou, não sou quem realiza, eu sou o eterno sonhador. Maldita seja sua pessoa! Maldita seja essa escrita onde não posso me esconder de mim, maldita sinceridade que não me permite mentir nem em meu legado... Quero, Liza. Quero novamente confundir teus soluços com os meus, e levar uma vida com teu sorriso ingênuo, ainda que sejamos miseráveis, mas não posso, Liza. Eu sou o sonhador. Por favor, vá para os Diabos! 

Sobre "Notas do Subsolo" de Dostoiévski 


"Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos."